Foto revela que Hopi Hari tentou fraudar a produção de provas


Nova perícia constata que assento em que jovem estava no Hopi Hari abre durante a queda

Débora Melo Do UOL, em Vinhedo (SP)

Foto mostra brinquedo onde aconteceu acidente que matou a adolescente Gabriela Nichimura
O delegado Álvaro Santucci Noventa Júnior, que investiga o acidente no parque de diversões Hopi Hari, em Vinhedo (SP) –que matou a adolescente Gabriela Nichimura no último dia 24–, determinou uma nova perícia no assento em que a garota, de fato, estava e foi constatado que a trava da cadeira abre durante a queda do brinquedo La Tour Eiffel –também conhecido como elevador. Inicialmente, a perícia havia sido feita no assento errado, onde Gabriela não estava sentada.
Após a oitiva de um funcionário que estava no brinquedo no momento do acidente e com o depoimento da mãe e da prima da menina, o delegado e o promotor concluíram que a menina estava, de fato, em uma cadeira que deveria estar interditada. “Hoje, alguns fatos que estavam duvidosos há dois, três dias são certos; essa menina estava em uma cadeira que jamais poderia ser ocupada, e era inoperante há anos. (..) Isso foi possível porque a família nos trouxe a foto da cadeira ocupada por ela”, disse o promotor Rogério Sanches Cunha. “A cadeira era inoperante, o parque não nega. O que o parque talvez quis negar em um primeiro momento era que alguém havia sentado nela.”
Segundo ele, as fotos mostram Gabriela “sentando e subindo na cadeira inoperante”. De acordo com o delegada Álvaro, a confusão aconteceu porque no dia do acidente, uma testemunha disse que a menina estaria em outra cadeira, e o Hopi Hari, por sua vez, informou que a cadeira onde a menina, de fato, estava, não era mais usada.
“Eu trabalho hoje com um grau máximo de negligência, apuramos inúmeras falhas que acabaram dentro da sucessão de erros provocando a morte de Gabriela”, completou Cunha. “A partir do momento em que o parque reconhece que aquela cadeira é inoperante, ele sabe que aquela cadeira tem problemas mecânicos. Então não é que houve falha mecânica, a falha na cadeira já era previsível. O que houve foi uma falha humana em não se impedir de entrar naquela cadeira”, completa.
Brinquedo fatal
De acordo com o promotor, a menina levantou sozinha a trava do assento interditado –que não contava com nenhum aviso– e entrou em “uma verdadeira arma”. “Hoje praticamente trabalhamos com a certeza de que, no momento da frenagem ou talvez um pouco antes, por falta de força de ficar se segurando, ela efetivamente caiu, pendendo o corpo para frente. Essa menina entrou em uma verdadeira arma, em um brinquedo que era fatal”, disse Cunha.
A promotora Ana Beatriz Sampaio Silva Vieira, de direito do consumidor, que também acompanhou os depoimentos, disse que a falta de aviso é uma “falha gravíssima”. “Há uma falha gravíssima do parque na medida em que faltou com a informação. Se a cadeira era interditada, era dever do parque colocar uma fita adesiva, qualquer tipo de alerta tanto para operadores quanto para usuários, de modo que ninguém fosse capaz de sentar.”
De acordo com a promotora, no dia do acidente o próprio Hopi Hari confirmou que aquele assento não era usado há anos porque, como ficava muito próximo à base de ferro da torre (“La Tour Eiffel”), havia chances de algum usuário mais alto acabar se chocando contra a estrutura de ferro.
O promotor disse que é cedo para falar em homicídio doloso. “A investigação é de homicídio. Agora, até que ponto houve apenas culpa ou houve a conduta de assumir o risco é que será investigado. O caso é bem mais complexo do que se imaginava. Tudo vai ser apurado, nada vai ser descartado (…) Há uma diferença entre assumir o risco e acreditar que jamais ocorrerá. É uma zona nebulosa que já enfrentamos nesse momento.”
O delegado informou que vai ouvir novamente o engenheiro responsável pelo parque nesta quinta-feira, a partir das 10h. Também está previsto o depoimento de um gerente de operações e manutenção.
Funcionários do parque
Dois funcionários do Hopi Hari que estavam trabalhando no brinquedo prestaram depoimento nesta quarta (29). Ao chegar ao local, o advogado dos funcionários –que não foram identificados– disse que os clientes iriam apresentar uma versão diferente da divulgada pelo parque. Segundo o defensor Bichir Ali Junior, a falha foi mecânica e os responsáveis sabiam do problema. “Detectou-se um defeito, foi avisado e foi ignorado. O brinquedo não podia operar, isso era notório e de conhecimento de todos. Aquela cadeira, no mínimo, tinha que ser interditada, lacrada, com um aviso gigantesco para ninguém sentar ali. A cadeira do acidente da menina já tinha um defeito mecânico detectado”, afirmou.
Parque fica no interior de SP

Segundo Ali Junior, o defeito foi informado a um superior dos funcionários no dia do acidente, 15 minutos antes do brinquedo entrar em operação, mas foi ignorado. O advogado disse ainda que a menina foi a primeira a usar a cadeira. “O problema estava na trava, o cinto é a segunda segurança, mas também não havia esse cinto, segundo o que os meninos falaram.”
O advogado também negou que seus clientes estivessem em tratamento médico. “A versão apresentada pelo parque foi a de que cinco funcionários estariam em tratamento psicológico. Mas dois estão aqui. Os outros três não sei onde estão, mas não existe essa versão”, afirmou.
Uma perícia na última segunda-feira mostrou que o brinquedo não tinha problemas mecânicos, mas o advogado dos pais da vítima, que também estiveram na delegacia hoje, contestou o exame e disse que a avaliação foi feita em uma cadeira errada. De acordo com o defensor Ademar Gomes, Gabriela estava em uma cadeira desativada, que não poderia ser usada. “A perícia foi feita na cadeira errada”, disse.
Abalados, os pais da jovem, Silmara e Armando Nichimura, não deram declarações à imprensa. Ademar Gomes afirmou que foram ouvidas a mãe, a tia e a prima da adolescente –o pai não falou e a família deverá voltar à delegacia em uma outra ocasião, em data ainda não definida.
Em entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo, no último domingo, a mãe de Gabriela afirmou que notou a ausência de um cinto na cadeira do brinquedo La Tour Eiffel, conhecido como elevador, de onde a jovem caiu. “Eu falei para a minha filha: ‘Está travado?’ Ela falou: ‘Mãe, está travado’. Só que tem um outro fecho, como se fosse um cinto, e eu observei que o dela não tinha esse fecho”, afirmou. “Só que tinha um funcionário do parque no momento e falou para mim: ‘Não tem problema. É seguro’”, completou Silmara. Em nota divulgada no final da tarde desta quarta, o Hopi Hari informou que, “em relação aos novos fatos, reitera veementemente a cooperação absoluta com todos os órgãos responsáveis na apuração definitiva deste caso”.
O acidente
O acidente ocorreu por volta das 10h30 de sexta-feira (24). A garota foi levada para o hospital Paulo Sacramento, em Jundiaí (SP), mas não resistiu. Ela teve traumatismo craniano seguido de parada cardíaca.
O parque fica no km 72,5 da rodovia dos Bandeirantes. O brinquedo onde ocorreu o acidente tem 69,5 metros de altura, o equivalente a um prédio de 23 andares. Na atração, os participantes caem em queda livre, podendo atingir 94 km/h, segundo informações do site do parque.
Em nota, o Hopi Hari informou que “lamenta profundamente o ocorrido” e que “está prestando toda a assistência à família da vítima e apoiando os órgãos responsáveis na investigação sobre as causas do acidente”.

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